Comportamento Disfuncional

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Comportamento Disfuncional

Zelda Sayre nasceu no Alabama, EUA, em 1900. Era a mais nova de seis irmãos e muito mimada pela mãe, porém, o pai, juiz da Suprema Corte, um homem bastante severo, era muito distante dela. Foi uma criança extremamente ativa, inteligente, mas não tinha interesse nas aulas. De família bastante rica, gostava de balé, moda, artes em geral e de se divertir. Sempre desafiou a autoridade do pai e com isso, sua vida social foi ativa desde muito cedo, onde bebia, fumava e passava muito tempo com os garotos.

Zelda desenvolveu uma ânsia por atenção, buscando ativamente desrespeitar convenções, fosse dançando o Charleston ou vestindo um traje de banho justo e da cor da pele para causar rumores de que nadava nua. Suas excentricidades tornaram-se um dos principais assuntos de fofoca da cidade, entretanto a influência de seu pai era uma rede de proteção, o que evitava a exclusão social dela.

Ela conheceu o escritor F. Scott Fitzgerald em 1918, após dois anos ficaram noivos. Amigos e membros da família ficaram receosos com o relacionamento e não aprovavam o consumo excessivo de álcool de Scott. Casaram-se em 1920 em Nova Iorque, onde foram morar. A história do casal Fitzgerald parecia um argumento de um filme hollywoodiano: dois jovens americanos apaixonados, loiros e belos, ricos e cultos, esnobes e divertidos, que se transformaram no casal na moda entre a beautiful people dos anos 20. Scott fazia sucesso pelo livro lançado O Grande Gatsby e Zelda era conhecida por sua beleza e desenvoltura. Ambos se tornaram celebridades levando-os para os altos círculos da sociedade. Eram também conhecidos como o Casal Ouro de New York devido ao elevado padrão de vida e exposição na mídia. Tiveram uma única filha, Frances, que sempre foi cuidada por empregados, pois o casal era egoísta demais para se dedicarem a ela. Mas o casamento dos dois estava marcado pelo excesso de bebida, comportamentos extravagantes, esbanjadores e por fim, liberalidade sexual. Travavam brigas serias onde quer que estivessem. Ironicamente, e para a satisfação do ego dos dois, nas páginas dos jornais nova-iorquinos eles haviam se tornado ícones de juventude e sucesso enfants terribles da Era do Jazz. 

Os amigos notavam que a presença deles nas festas tinha passado de elegante a autodestrutiva os dois tinham se tornado companhias desagradáveis e começaram a evitá-los. Em 1924 se mudaram para Paris. A extravagância de seu estilo de vida nos EUA nos quatro anos anteriores os deixou em débito tanto financeira como emocionalmente. Estavam falindo e o casamento totalmente desgastado. Paris seria um novo começo para os dois. Scott pretendia voltar a escrever e - o dólar forte valia muito na França - eles esperavam aliviarem seus problemas financeiros. Só que escolheram o "lugar errado", afinal, Paris fervilhava festa, luxuria e arte. E lá repetem todos os comportamentos já conhecido. Scott e Zelda eram reconhecidamente alcoólatras e sem limites (banhos nas fontes públicas, festas privadas intermináveis, brigas com a polícia e com os vizinhos, ela dançando em cima das mesas dos restaurantes, infidelidades mutuas). Na quebra da bolsa dos EUA em 1929, perderam muito dinheiro, e ele tornou-se incapaz de ultrapassar a crise criativa, não mais conseguindo escrever como antes. Ela começa a fazer compulsivamente aulas de balé por até 8 horas diariamente, a pintar quadros e escrever poesias, mas desorganizada e inconsequente -  consumia muito absinto, bebida alcoólica apelidada de "fada verde" porque às vezes levava a alucinações - não conseguiu dar continuidade a nada.

Zelda, que sempre se opôs as normas paternas, agia como se as normas (qualquer que fosse) tivessem que ser necessariamente transgredidas por ela. Em meio a esse caos pessoal, começa a apresentar visíveis comportamentos autodestrutivos: amnesias e comas alcoólicos, tentativa de suicídio por remédios, assim como depressão grave, alterações no fluxo do pensamento e fala desorganizada. Scott a interna em um sanatório em Paris onde foi tratada por Eugen Bleuler e diagnosticada como esquizofrênica. Foi transferida para uma clínica na Suíça. Só foi liberada dois anos depois para voltar a sua cidade natal, para ver o pai doente.  O pai morre e sua saúde mental piorou outra vez, voltando a viver em uma clínica psiquiátrica onde ficou por quatro anos. O marido não se interessou por saber dela na clínica, estava em Hollywood procurando emprego e tendo envolvimentos amorosos. Por sua vez, as internações afastaram Zelda da bebida, organizaram sua rotina e propiciaram a introspecção, e também fizeram despertar seu lado artístico.

Enquanto passava por um tratamento intensivo em Baltimore, Zelda teve um arroubo de criatividade e em seis semanas escreveu um romance inteiro e o enviou para o editor de Scott. O livro era um relato semiautobiográfico do casamento deles. Scott forçou Zelda a alterar o romance, removendo as partes que foram baseadas no material compartilhado que ele planejava usar. Após vários desentendimentos e retaliações de Scott, o livro de Zelda intitulado Essa valsa é minha foi lançado e fez enorme sucesso. Ela também recomeçou a pintar, escrever poesias, contos e mantinha correspondência, através de lindas e muito bem escritas cartas (que depois de sua morte foram publicadas em livro) com os poucos amigos. Zelda teve várias internações, pois oscilava muito da depressão à agressividade, da consciência aos estados confusionais com alucinações e delírios paranoides. Scott a rejeitava após as internações e menosprezava seu trabalho de escritora e artista plástica. Ele, que já não era mais tão produtivo e criativo, não suportava a ideia de a esposa fazer sucesso.

Zelda passou anos sem ver o marido, que cada vez mais amargo com seus próprios fracassos, bebia ainda mais e comia pouco, culminando com sua morte aos 44 anos de idade, de ataque cardíaco. Ela não se abalou com o ocorrido, estavam distantes e ele era seu maior crítico, e não conseguiu comparecer ao funeral dele. Alguns meses após ficar viúva, devido à internação psiquiátrica (e a falta de proximidade maternal) também não foi ao casamento de sua filha

E, seguindo a ideia de que sua vida pareceu um argumento de filme, em 1948 estava internada no hospital psiquiátrico de Asheville, escrevendo um novo romance Caesar's Things, quando um grande incêndio consome totalmente o hospital e Zelda, trancada em seu quarto em uma das alas do hospital, não conseguiu ser salva, tendo uma morte trágica, morreu queimada aos 48 anos de idade.

Suas obras passaram as décadas de 1950 e 1960 nos sótãos da família (inclusive, a mãe mandou queimar muitos dos seus quadros porque não gostava deles), destruindo grande parte de seu acervo. Entretanto, em meados dos anos 1980, estudiosos e críticos de arte começaram a examiná-las concluindo que suas pinturas representam o trabalho de uma mulher talentosa e visionária. Constataram então que Zelda criou um conjunto de obras fascinante, intensas e vibrantes, com visível influência dos geniais Vincent van Gogh e Georgia O`Keeffe, que nos inspira a celebrar a vida. Desde então, exposições de seus trabalhos já viajaram as grandes cidades dos EUA e 14 países da Europa, com grande sucesso de crítica e público. Suas poesias, contos e cartas também foram compilados e publicados. Vários livros foram escritos sobre sua fascinante e trágica vida, e alguns adaptados para filmes e minissérie, tendo como temas sua arte, o processo do adoecer psíquico e a relação de codependência afetiva abusiva do casal.

 

O outro como referência da própria vida

 

Cartas entre Scott e Zelda ao longo de toda a suas vidas demonstram a imensa e profunda relação de dependência que tinham um pelo outro, mesmo quando não o amor acabou e não conviviam mais juntos, cada um culpava o outro por seus desapontamentos, fracassos e pelo relacionamento destrutivo e desqualificador que desenvolveram. Porém, mesmo com tudo isso, não deixaram de ter o outro como referência da própria vida.

A essa relação nada saudável, chamamos de codependência. No caso deles, e na maioria de outras ocorrências, essa relação patológica foi sendo estruturada de forma gradual e continua, durante muito tempo. A codependência é um padrão de comportamento sempre disfuncional, pois direciona o foco do indivíduo para fora de si, assim como para as estratégias de enfrentamento de problemas, retardando-os de serem resolvidos e colocando a culpa ou responsabilidade no outro de todos os fatos e situações. Além disso, a codependência é um comportamento que corrobora e facilita as atitudes impróprias, ajuda a perpetuar os problemas do relacionamento e, até, favorece o abuso físico e mental. Como consequência, uma vez que firmemente estabelecida como um comportamento, caracteriza-se por um processo de dependência emocional, social e até física e, com o passar do tempo, torna-se um perigoso traço de alteração da personalidade, com desdobramentos para patologias psíquicas maiores, como psicoses e esquizofrenia.

Na codependência um fato conhecido é que a obsessão pelo outro e a dependência patológica causa grande impacto e sofrimento na vida de quem a vive e também na das pessoas próximas, mas poucos percebem que estão vivendo uma relação codependente, e que ela é altamente prejudicial para ambas às partes envolvidas. Tanto que em um certo período Zelda apaixonou-se por um piloto francês e pediu o divórcio. O relacionamento do casal estava péssimo, só se agrediam, mas Scott não aceitou o fim e a trancou no quarto da casa deles até que ela, semanas depois, desistisse da ideia.

 

 


Fonte: Revista Psique (Edição 156)

Escrito por: Prof. Anderson Zenidarci.